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» » » » O que explica esse ódio doentio contra o ex-presidente Lula e o PT

Ainda não consegui entender se há razão objetiva para tanto discurso de ódio contra o Lula e o PT. Parece ser apenas fruto de estupidez, idiotia e boçalidade. Impressiona nesse discurso emocional o velho fenômeno do ressentimento pessoal ou social pela “proletarização da classe média“. O bode-expiatório simplório é culpar Lula, Dilma e o PT. Tanta burrice de gente iletrada e inculta é espantosa ou esperada?
Mas continuo lendo e investigando outras possíveis hipóteses a respeito. A última análise lida por mim é uma psicanalítica, apresentada em entrevista do Nexo. Entrevistou por escrito o mestre, doutor e professor de Psicologia da PUC de São Paulo, Raul Pacheco. Ele é também coordenador do Núcleo de Pesquisa Psicanálise e Sociedade. Pacheco falou da intersecção entre a política e os sentimentos da população no momento atual que o Brasil atravessa.
Em síntese, sua hipótese é: ‘Uma liderança que governe visando distribuição da riqueza e ampliação da capacidade de consumo da população desperta o desconforto e até mesmo o ódio. A melhoria da condição econômica não foi acompanhada de aumentos comparáveis da consciência política e da solidariedade social’.
Lula sempre exerceu grande liderança, mas também sempre teve uma parcela significativa de desafetos. Pacheco apresenta, então, outra consideração psicanalítica.
“A realização e lugar de prestígio que as pessoas buscam no que chamamos de discurso capitalista faz-se progressivamente por meio da sua condição econômica e de sua capacidade de consumo. A tal ponto que isso passa a absorver a quase totalidade da vida. Até mesmo as aspirações espirituais e religiosas e as de ligação no laço social são atravessadas pelo econômico: veja-se a progressão da chamada teologia da prosperidade e o crescimento espantoso das igrejas-empresas.
Junto com isso, vêm o crescimento e a consolidação de uma ideologia da realização individual autocentrada e egoísta, em função da localização na pirâmide econômica. Diferenciar-se dos demais, superando-os e deixando-os em posição econômica e de consumo inferior passa a ser a via socialmente prescrita de sucesso e de realização pessoal.
Ser mais rico e melhor inserido no universo de consumo é concebido e sentido como virtude e mérito: basta lembrar a propagação da ideologia da meritocracia. Importa bastante poder consumir mercadorias como forma de tentar se aproximar do que se apresenta de modo indefinido como realização de desejo. Mas também é essencial poder consumir mais e melhor do que os demais, pois isso confere a insígnia social do vencedor(winner), estabelecendo a distância dos perdedores, que não têm competência para chegar ao topo.
Do mesmo modo que a lepra foi considerada castigo divino pelos pecados cometidos, assim é, inconscientemente, sentida a pobreza e a penúria pelo sujeito do capitalismo: falta da Graça Divina.”
Nesse sentido, Raul Pacheco diz que “o discurso capitalista cria uma espécie de religião da riqueza econômica e do consumo e não é à toa que a própria instituição religiosa tenha sido capturada nas malhas do discurso e da lógica capitalista. Compreende-se então que uma liderança que governe visando distribuição da riqueza e ampliação da capacidade de consumo da população desperte o desconforto e até mesmo o ódio dos que se encontram, senão no topo, pelo menos em posições intermediárias da pirâmide econômica e de consumo.”
O que ocorre com as insígnias de status e de realização, se elas são espalhadas pela população, esvaindo-se o que ressalta a diferença e atesta o mérito imaginado exclusivo?
Assim, o próprio automóvel duramente conquistado pode continuar a transportar de um lugar para outro, mas não mais oferece o mesmo sentimento de realização se o zelador do seu edifício ou o garçom do restaurante que frequenta também se locomovem da mesma maneira. As praias de Miami podem continuar agradáveis, mas não lhe conferem mais o mesmo sentimento de grandeza (realização fálica, diríamos psicanaliticamente), se escuta a cabeleireira (ou, pior, a manicure) dizer que ela também já esteve por lá algum dia.
Segundo Raul Pacheco, “foi a energia de insatisfação dessa parcela da população em posição intermediária da pirâmide econômica que, em um momento de aperto econômico, a grande mídia – de que a revista Veja e a Rede Globo são paradigmas – conseguiu capturar e dirigir para manifestações a favor do impeachment de Dilma e da prisão de Lula”.
discurso cínico e pseudo moralista por parte de gente corruptora, no dia-a-dia,  é conhecido: a defesa da moralidade e contra a corrupção. Ele se desmascara, quando não se dirige contra um governo empossado com inquestionáveis indícios de corrupção.
Paradoxalmente, uma parte desse estrato ascendeu a essa posição intermediária exatamente em função da distribuição econômica operada nos próprios governos de Lula: é a criatura voltando-se contra o seu criador. Este é um ponto a requerer uma profunda reflexão por parte de partidos políticos e pensadores sociais comprometidos com a transformação e melhoria da condição econômica da população.
Raul Pacheco registra apenas a observação de que a melhoria da condição econômica não foi acompanhada de aumentos comparáveis da consciência política e da solidariedade social.
Outro ponto essencial para se entender como a energia de parcelas da população está sendo capturada para produzir retrocessos civilizatórios e até mesmo espoliação da própria riqueza do país (petróleo, água, empresas etc) é a atenção para a atuação subterrânea e nem sempre clara de grupos econômicos que as usam como “massa-de-manobra”.
Cada vez mais, dão a tônica dos acontecimentos políticos, a partir de intervenções organizadas e dirigidas sobre a coesão social e as instituições da sociedade brasileira. Essas intervenções infiltram-se na cultura, na mídia, no âmbito dos aparatos Legislativo, Judiciário, e militar e policial.
Muitas reportagens e matérias jornalísticas têm, cada vez mais, mostrado a forte organização da atividade política de uma ultradireita radical, que injeta milhões de dólares em atividades e instituições que favoreçam seus interesses. O livro da historiadora americana Nancy MacLean, pesquisadora e professora de História e Políticas Públicas na Duke University, e que foi um dos cinco finalistas de livros de não ficção para o prêmio National Book Award em 2017, mostra como os irmãos Charles e David Koch, (entre os dez homens mais ricos dos EUA) e outros bilionários, financiam, silenciosamente, um projeto político que implica devastar o serviço público e o bem comum.
objetivo é estabelecer a liberdade total de ação da parcela 1% mais rica da população e, para isto, subsidiam organizações, instituições e universidades que ajudem a difundir ideias para consolidar esse projeto mundial. No Brasil, vários jornalistas têm alertado sobre as conexões entre o Charles Koch Institute, o Movimento Brasil Livre e os Estudantes pela Liberdade.
Como saber se esses sentimentos de ódio e de tristeza com a política estão extrapolando o que seria considerado saudável no contexto brasileiro atual?
Para Raul Pacheco, o conflito e a crise podem ser o motor de mudanças pessoais. Psicanalistas constatam isso na vida das pessoas que acompanham em processo de análise. Da mesma maneira, a transformação e o progresso na sociedade podem ocorrer em função de conflitos sociais.
Mas, da mesma maneira que no caso da vida das pessoas, isto não significa que a existência de conflitos conduza necessariamente ao progresso civilizatório de uma população ou país. O modo como esses conflitos sejam canalizados para colocar em andamento um processo de progresso depende da existência ou do surgimento de forças organizadoras que forneçam eixos de direção do movimento.
No caso de um processo analítico, o analista constitui uma força organizadora, a partir do que psicanaliticamente chamam de “transferência”. No caso das populações, isso depende sempre da emergência de lideranças, ainda que, nem sempre, as formalmente instituídas pelos aparatos já existentes.
Raul Pacheco entende que isso irá definir se, no futuro, olharmos para trás e lamentarmos o que estamos vivendo no presente, ou se nos alegraremos em saudar os acontecimentos atuais como disparadores de transformações relevantes: verdadeiros atos políticos que marquem a transição de um passado de injustiça, desigualdade, violência e exclusão do poder político da maior parte da população para um momento histórico mais favorável.
Link para matéria completa: clique aqui

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