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» » » » Conhecimento, filosofia, religião e crença

Johannes Hessen, no livro “Teoria do Conhecimento”, obteve inicialmente uma definição da essência da Filosofia mediante um procedimento indutivo. Depois, completa esse procedimento indutivo com um dedutivo.
Este último consiste em situar a Filosofia no contexto das funções superiores do espírito, indicar o lugar que ela ocupa no sistema da cultura como um todo. O conjunto das funções culturais lança uma nova luz sobre o conceito essencial de filosofia que obteve.
Entre as funções superiores do espírito e da cultura incluem-se:
  1. a ciência,
  2. a arte,
  3. a religião e
  4. a moral.
Quando relacionamos a Filosofia a essas funções, é da moral que ela mais parece distanciar-se. A moral diz respeito ao lado prático da existência humana, pois seu sujeito é a vontade. A Filosofia, por sua vez, pertence completamente ao lado teórico do espírito humano. Por isso, ela parece estar nas cercanias da ciência.
De fato, existe uma afinidade entre Filosofia e Ciência, na medida em que estão baseadas na mesma função do espírito humano: o pensamento. Porém, ambas se distinguem por seu objeto:
  1. enquanto as ciências particulares tomam por objeto uma parte da realidade,
  2. a filosofia dirige-se à totalidade do real.
Não obstante, poderíamos pensar em aplicar o conceito de ciência à filosofia. Distinguiríamos, então, entre ciência particular e universal, chamando a última de Filosofia. Não é correto, porém, subordinar a filosofia à ciência, tratando-a como se fosse um tipo determinado de ciência, pois em virtude de seu objeto a filosofia não se distingue da ciência por graus, mas essencialmente.
A totalidade do ente é mais do que uma soma dos diferentes dos diferentes domínios parciais da realidade que constituem o objeto das ciências particulares. Frente a esses domínios parciais, a totalidade é um objeto novo, de outro tipo. Por isso, ela pressupõe também uma nova função por parte do sujeito.
O conhecimento filosófico, dirigido à totalidade das coisas, é essencialmente distinto do conhecimento das ciências particulares, que vai ao encontro de domínios parciais da realidade. Entre Filosofia e Ciência, portanto, há diferença não apenas sob o aspecto objetivo, mas também sob o aspecto subjetivo.
E como Johannes Hessen, no livro “Teoria Do Conhecimento”, mostra a relação da filosofia com os dois domínios restantes da cultura, a arte e a religião? A resposta deve ser: existe uma profunda afinidade entre esses três domínios culturais. Eles estão ligados por uma amarra comum, que é seu objeto.
Com efeito, são os mesmos enigmas do mundo e da vida que estão colocados diante da poesia, da religião e da filosofia. No fundo, as três querem solucionar esses enigmas, querem fornecer uma interpretação da realidade, uma visão de mundo.
O que as diferencia é a origem dessa visão de mundo:
  • a visão filosófica de mundo brota do conhecimento racional,
  • a origem da visão religiosa de mundo está na fé religiosa.
O princípio do qual esta última procede e que determina seu espírito é a vivência religiosa dos valores, a experiência de Deus:
  • a visão religiosa de mundo depende decisivamente de fatores subjetivos,
  • a visão filosófica de mundo reclama validade universal, demonstrabilidade racional.
O que dá acesso à primeira não é o conhecimento universalmente válido, mas a experiência pessoal, a vivência religiosa. Existe, pois uma diferença essencial entre a visão de mundo religiosa e a filosófica e, consequentemente, entre religião e filosofia.
A filosofia é também essencialmente distinta da arte. A interpretação do mundo feita pelo artista provém tão pouco do pensamento puro quanto a concepção de mundo do homem religioso. Também ela deve sua origem muito mais à vivência e à intuição. O verdadeiro artista não produz sua obra com o intelecto, mas a partir da totalidade das forças espirituais.
A essa diferença nas funções subjetivas acresce uma distinção no aspecto objetivo. O verdadeiro artista não está, como o filósofo, diretamente voltado à totalidade do ser. Seu espírito dirige-se, antes de mais nada, a um ser e a um acontecer concretos. À medida que os representa, eleva este ser e este acontecer concretos ao nível do mundo da aparência, do irreal. [O artista moderno não representa o visível, ele faz o visível.]
O estranho é que, nesse acontecer irreal, o sentido do acontecer real se manifesta; no acontecer particular apresentam-se o sentido e o valor do acontecer do mundo. Assim, na medida em que interpreta um ser ou acontecer particular, o verdadeiro artista nos dá indiretamente uma interpretação da totalidade do mundo e da vida.
Se tentarmos agora determinar o lugar da Filosofia no sistema da cultura, Johannes Hessen, no livro “Teoria Do Conhecimento”, diz o seguinte. A Filosofia tem uma face voltada para a religião e para a arte e outra face voltada para a ciência:
  • com a religião e a arte, tem em comum o olhar dirigido à totalidade do real;
  • com a ciência, tem em comum o caráter teórico.

No sistema da cultura, portanto, a Filosofia tem seu lugar entre a ciência, de um lado, e a religião e a arte, de outro. Dentre as últimas, é da religião que a Filosofia está mais próxima, na medida em que também a religião se dirige à totalidade do ser e tenta interpretar essa totalidade. (Por Fernando Nogueira da Costa)

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