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» » » » A filosofia da mente e as emoções

João de Fernandes Teixeira bacharelou-se em Filosofia pela USP-SP e obteve o grau de mestre em lógica e filosofia da ciência na UNICAMP. Doutorou-se em filosofia da mente e ciência cognitiva na University of Essex, Inglaterra. Desde 1992, é professor no Departamento de Filosofia da Universidade Federal de São Carlos.

Ele escreveu uma breve introdução a uma área de conhecimento bastante atual: “O que é Filosofia da Mente” (Coleção Primeiros Passos, Número 294; Editora Brasiliense; 1994). Afirma que “a Psicologia quer fazer uma ciência da mente, desenvolveu testes e teorias acerca do funcionamento mental do homem e de alguns animais. Mas os psicólogos nunca chegaram a um consenso sobre o que é a mente e sobre o que eles estão falando. Há não muito tempo havia psicólogos que nem sequer reconheciam a existência da mente ou dos fenômenos mentais, embora se declarassem estudiosos de Psicologia”.

Por outro lado, nos últimos anos presenciamos um imenso desenvolvimento da Neurofisiologia e das chamadas “ciências de cérebro“. Mas será que essas ciências podem nos ajudar a encontrar uma resposta para tais questões?

Podemos até imaginar um neurocirurgião abrindo a cabeça de alguém e examinando seu cérebro: certamente ele verá muitas células nervosas, mas nunca verá uma ideia, um sentimento ou uma emoção. Talvez esta seja uma maneira de caracterizar a natureza dos fenômenos mentais: eles são invisíveis. Mas será esta uma boa caracterização?

Isto não quer dizer que o estudo da mente não possa ser feito a partir do estudo do cérebro. Mas ao fazer esta afirmação o neurofisiólogo estaria se esquecendo de uma diferença fundamental: “massa”, “aceleração”, “gravidade” podem ser medidas. Não teria sentido dizer que um dia poderemos “medir uma ideia” ou estabelecer a “quantidade de alegria” que sentimos. Falamos de coisas que nos dão mais alegria ou menos alegria, mas isto está longe de ser uma medida das emoções.

Fenômenos mentais não são apenas invisíveis e impossíveis de serem medidos. A grande diferença estaria no fato de eles serem inacessíveis à observação. A inacessibilidade dos fenômenos mentais torna-os essencialmente subjetivos ou privados, para usar o jargão filosófico.

Ora, se não podemos observar uma ideia, um sentimento ou uma emoção, porque são imateriais, isto equivale a dizer que pensamentos não podem ser destruídos: só podemos destruir coisas que estão no mundo. Seria possível aniquilar criaturas e seus cérebros, mas não ideias e pensamentos.

Dessa suposição originou-se a concepção de que a mente (ou a alma) seria imortal e que persistiria no tempo, mesmo após a desintegração do corpo. Tudo se passa como se alguém dissesse: é possível destruir tudo o que é triangular, mas você nunca poderá destruir a ideia de triângulo. Foi com base num argumento parecido com este que alguns filósofos sustentaram, durante muito tempo, a imortalidade da mente (ou da alma).

Mas serão a persistência no tempo e a indestrutibilidade características exclusivas dos fenômenos mentais? Será que alguém, alguma vez, conseguiu destruir um pedaço de matéria? “Nada se cria, tudo se transforma”. Nem mesmo uma bomba atômica pode destruir um pedaço de matéria; ela pode, no máximo, transformá-la. A indestrutibilidade não seria, assim, uma característica exclusiva da mente.

Fenômenos mentais são subjetivos e privados, o que significa dizer que eles ocorrem para nós. Mas será isto suficiente para manter a afirmação de que a mente nada tem a ver com o cérebro?

Tenho uma dor de cabeça e tomo uma aspirina; se a dor passa, em que local terá atuado a aspirina? Na mente ou no cérebro? A dor pode ser algo privado e inacessível, mas como pode uma substância química influir na mente? Não parece claro que indivíduos com grandes porções de seus cérebros danificados em acidentes perdem grande parte de suas atividades mentais?

Mente e cérebro podem ser coisas distintas, mas certamente estão ligadas de alguma maneira. O problema é saber como é possível dar-se esta ligação — e este é um problema para o filósofo da mente resolver.

Os filósofos da mente sempre tiveram por objetivo esclarecer questões fundamentais, tais como:
  • O que distingue a mente de outros objetos que estão no universo?
  • Qual é a natureza do pensamento?
  • Será o pensamento algo imortal e eterno?
  • Serão mente e cérebro uma só e mesma coisa?
  • Será distinção entre espírito e matéria apenas uma ilusão produzida pela nossa linguagem ou pela nossa cultura?
Na verdade, essas sempre foram questões da Filosofia e percorrem toda sua história. Mas de 1940 para cá elas começaram a ganhar uma ênfase especial por parte de alguns filósofos, principalmente na Inglaterra e nos Estados Unidos.

A década de 40 presenciou grandes inovações científicas e tecnológicas. Os estudos sobre o cérebro tinham avançado muito e já surgiam os primeiros computadores digitais. Falava-se de uma analogia entre computadores e cérebro, e isto forçava os filósofos a refletirem sobre uma afirmação que se tornava cada vez mais frequente entre cientistas: a de que uma máquina pode pensar. É claro que tal afirmação tinha ecos mais profundos entre os filósofos. Trata-se de saber, a final de contas, o que é essa coisa estranha que chamamos de pensamento.

Os progressos da neurofisiologia também atormentavam os filósofos. Experimentos com o cérebro, avanços em técnicas neurocirúrgicas abriram uma perspectiva fantástica: a de que um dia seria possível realizar um transplante de cérebro. Se isto fosse possível, diziam alguns, todas as questões da Filosofia da Mente estariam resolvidas. Seria possível verificar se o organismo transplantado adquiria as mesmas memórias e pensamentos do doador. Neste caso, a mente não seria nada mais do que o cérebro.

O transplante de cérebro nunca foi realizado e é provável que nunca seja possível. Talvez não seja esse o caminho para sabermos alguma coisa acerca da natureza da mente. Mas a possibilidade deste tipo de cirurgia reavivava uma das questões mais interessantes da Filosofia da Mente: o que permite dizer que eu sou eu, ou, em outras palavras, o que me confere identidade pessoal? Serão minhas memórias? Será a estrutura química peculiar de meu cérebro?

A Filosofia, no início do século XX, tinha seguido uma trajetória bastante estranha. A grande preocupação com a linguagem, que era então dominante, sugeria que todos os problemas da Filosofia da Mente nada mais eram do que ilusões. Ilusões produzidas pela própria linguagem, que teria se tornado um imenso labirinto no qual a reflexão teria se enredado e se perdido. Seria inútil refletir sobre a mente sem antes refletir sobre a linguagem. Mas esta tendência foi sendo progressivamente revertida.


Hoje em dia os filósofos da mente não desprezaram a reflexão sobre linguagem, mas estão convencidos de que ela, por sim só, é apenas um ponto de partida para iniciar a discussão dos problemas que estão envolvidos na descoberta da natureza e das propriedades dos para iniciar a discussão dos problemas que estão envolvidos na descoberta da natureza e das propriedades dos fenômenos mentais. (Por Fernando Nogueira da Costa)

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