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» » » » Os novos pilares da economia e as novas formas de empregos e ocupações

Para muitos pode parecer que o chefe global de estratégia de investimentos temáticos do Bank of America Merrill Lynch (BofA), Sarbjit Nahal, dedica-se a antever o futuro. Mas suas pesquisas passam longe de qualquer tipo de futurologia. Nahal comanda uma equipe no banco americano dedicada a identificar as tendências no longo prazo e entender como as transformações no mundo vão impactar o amanhã. Segundo o especialista, “uma melhor compreensão dos fatores que criam e destroem valor” ao longo das décadas será cada vez mais essencial para se obter retornos acima da média do mercado.

Para Nahal, as disrupções tecnológicas tornam “a ideia de um ‘momento Kodak‘ [em referência à fabricante de filmes fotográficos que entrou em concordata após o surgimento das câmeras digitais] cada vez mais presente”. Nesse ambiente em que as inovações se multiplicam em alta velocidade fabricantes de semicondutores e chips “serão as vencedoras do século”.

Em entrevista a Sérgio Tauhata (Valor, 28/12/17), Nahal aponta as mudanças climáticas como “o fator que vai definir nossa era”. Desse modo, as oportunidades de ganho recaem, entre outras áreas, sobre geração de energia limpa e veículos elétricos.
O futuro vislumbrado pela equipe do BofA também contempla um alcance cada vez maior da economia compartilhada e a inexorável transformação do mercado de trabalho por conta da automação e da disseminação da inteligência artificial. “Nos EUA, até 2050 quase metade dos empregos estará sob risco de acabar”, considera. Veja a seguir os principais trechos da entrevista.

Valor: Como pesquisas sobre tendências ajudam investidores?
Sarbjit Nahal: Nosso foco está nas tendências de longo prazo. Pesquisamos o que chamamos de matriz de transformação do mundo, com temas como Terra, governos, inovação, mercados e pessoas. O que tentamos fazer é quebrar as “caixas”, ou seja, a forma compartimentada com a qual enxergamos países, regiões ou setores, para entender melhor o que essas tendências vão se tornar sob uma perspectiva de investimentos. São temas como mudanças climáticas, eficiência energética, bônus verdes, controle de desperdícios, água, tecnologias disruptivas, ‘big data’, cibersegurança, mobilidade, inteligência artificial, economia compartilhada, mudanças demográficas e todos os assuntos ligados ao planeta, pessoas e inovações. Em última análise tentamos fazer com que os clientes entendam quais os vencedores e perdedores nesses cenários, que companhias têm potencial para se tornarem provedoras de soluções e quais podem ser impactadas por uma disrupção.

Valor: Mas como essas tendências de longo prazo podem influenciar as decisões de investimento?
Nahal: Um dos motivos para que nos voltemos a esses assuntos é que nossa base de clientes tem ficado cada vez mais temático. Estamos assistindo a uma mudança da visão míope e do foco obsessivo em resultados trimestrais para uma melhor compreensão dos fatores que criam e destroem valor de longo prazo. Temos visto várias instituições, como gestoras e fundos de pensão, criando áreas para monitorar tendências com efeito no longo prazo e criar modelos de investimento que levem em conta, por exemplo, as mudanças climáticas. Temos visto uma alocação crescente de recursos para o longo prazo. Está acontecendo nos EUA, na Europa, na Ásia e acreditamos que vai se tornar cada vez mais importante em países como o Brasil e outros da América Latina.

Valor: De que maneira as mudanças demográficas vão influenciar os serviços dos bancos?
Nahal: Nós começamos a ver cada vez mais clientes de varejo do banco interessados nesses temas. Meus colegas no segmento de gestão de fortunas nos EUA notaram que 51% dos clientes da geração “baby boom” [nascidos logo após a Segunda Guerra], 68% dos clientes da geração X [nascidos entre 1960 e 1980], 73% das clientes mulheres e 93% dos clientes millennials [nascidos entre 1980 e 1995] incluem esses cenários de longo prazo, bem como questões socioambientais como fatores importantes quando tomam uma decisão de investimento e escolhem um consultor. Muitas das mudanças serão definidas pela demografia, com as gerações mais novas pensando e agindo de maneira muito diferente do jeito tradicional. Vamos ver uma mudança muito grande no comportamento dos nossos clientes de gestão de ativos, que agora exigem no portfólio companhias que tenham estratégias de criação de valor no longo prazo, além de produtos de investimento como fundos e ETFs que sigam esses valores.

Valor: Qual outro tema tem sido pesquisado pela sua equipe?
Nahal: As disrupções que a tecnologia pode causar são um dos temas que mais observamos. Vamos colocar em perspectiva. Hoje há redes de fast food na Califórnia que têm robôs fazendo hambúrgueres. Os robôs conseguem fazer 400 sanduíches por hora, eles cortam ingredientes, dosam temperos, tudo a um custo de US$ 2 a hora. A ideia de um “momento Kodak” se torna cada vez mais presente. A expectativa de vida das empresas do S&P 500 está em declínio nos últimos 50 anos. Mais e mais empresas estão enfrentando o impacto da desintermediação.

Valor: As questões ambientais são sempre apontadas como variáveis essenciais no longo prazo. Qual a importância desse tema?
Nahal: Nós acreditamos que as mudanças climáticas vão ser um dos fatores de definição da nossa era. Os fatos são impressionantes. Cerca de 17 dos anos mais quentes desde que a medição de temperatura anual começou em 1880 ocorreram neste século. A concentração de gás carbônico na atmosfera está nos maiores níveis em centenas de milhares de anos e climas extremos cobrem agora entre 20% e 30% do globo, isso comparado com 0,1% a 0,2% entre 1951 a 1980. Recentes estudos mostram que temos 93% de chances de a temperatura aumentar quatro graus Celsius em relação ao período pré-industrial, o que seria devastador para muitas partes do globo. Mas em meio ao cenário de desafios há oportunidades. O investimento em tecnologia limpa foi de US$ 287,5 bilhões em 2016 em áreas como geração eólica e solar. Perto de dois terços da capacidade de geração adicionada à rede global no ano passado veio de fontes de geração limpas.

Valor: Quais outros investimentos temáticos você destacaria?
Nahal: Estamos empolgados com o que está acontecendo nas áreas de mobilidade e transportes, que movimentam no mundo hoje US$ 6,8 trilhões. Vamos ver mais mudanças nos próximos cinco anos do que nos últimos 50 anos. Veículos autônomos, carros elétricos e compartilhados vão revolucionar a indústria de transporte. Acreditamos que 90% dos carros novos vendidos em 2025 serão elétricos. Já temos veículos autônomos na Califórnia, Arizona e Cingapura. Em termos de economia compartilhada, o Uber já ultrapassou os táxis amarelos em Nova York em termos de passageiros transportados. Acreditamos que os 22 milhões de automóveis envolvidos com economia compartilhada no ano passado vão se tornar 130 milhões em 2030. E nossa visão de longo prazo é que haverá formas mais baratas e fáceis de se movimentar por cidades como São Paulo, Rio ou Nova York, ou seja, teremos um táxi-robô compartilhado. Isso será um incrível fator de mudança de jogo. E será potencializado pela demografia, pois os mais jovens não vão mais querer comprar ou dirigir os veículos.

Valor: Como capturar essas mudanças na mobilidade urbana?

Nahal: As empresas de semicondutores e fabricantes de chips serão as grandes vencedoras do século, porque serão as bases para essas forças transformadoras. Pense na coleta de lixo. O serviço é feito da mesma forma faz cem anos. Uma pessoa vai de lata em lata e esvazia o lixo no caminhão, esteja a lata 90% cheia ou 30% cheia. Se você colocar chips nos compartimentos de lixo poderá existir um serviço mais efetivo, com menos latas para coletar ou menos caminhões usados para isso. Nosso foco está voltado também para os robôs e a inteligência artificial. Achamos que essas duas tecnologias continuarão a crescer. E isso pode ser uma oportunidade para emergentes em que o alcance desse tipo de tecnologia é muito baixo em comparação com países como EUA, Alemanha, Japão, Cingapura e Coreia do Sul. Achamos que os investidores tem de focar em áreas de ‘collaborative robots’ (cobots) [criados pra interagir com humanos], software e inteligência artificial.

Valor: Os robôs e a inteligência artificial representam risco para a indústria financeira tradicional?
Nahal: As mudanças que estamos vendo trazem oportunidades significativas e também riscos para o setor financeiro. Em termos de oportunidades, podemos transformar essas tendências de longo prazo em produtos para nossos clientes. Muitas tecnologias também ajudam a reduzir custos. Precisamos pensar nas mudanças demográficas. Os millennials não são muito apegados às marcas, sejam companhias de serviços financeiros ou quaisquer outras, mas a tecnologia faz parte da maneira como vivem suas vidas e tomam decisões de investimento. Então é absolutamente importante para nós termos capacidade de alavancar tecnologia ou nós perderemos nossos clientes. As gerações mais novas são muito céticas em relação à indústria financeira e mais propensas a usar soluções alternativas, incluindo serviços de companhias de tecnologia. Consultores-robôs, por exemplo, estão sendo integrados às soluções oferecidas por muitos dos participantes do setor financeiro para não perder cliente. As maiores demandas de nossos clientes ao redor do mundo, particularmente os mais jovens, são por maior transparência em relação às taxas, remuneração mais justa e produtos de custo mais baixo. E os consultores-robôs são uma forma de se fazer isso. Então não se trata de canibalizar o próprio mercado, mas de oferecer opções e evitar que os clientes migrem para outros lugares.

Valor: Automação é sempre vista como uma ameça aos empregos tradicionais. Isso é fato ou mito?
Nahal: A regra básica é que qualquer coisa que seja repetitiva, operada de acordo com regras predefinidas ou perigosa está sob risco de disrupção. E isso inclui os empregos, como em indústrias têxteis, fast food, táxis, e cada vez mais na indústria financeira. Quando você aplica as três regras a uma sociedade como a americana verifica-se que 47% dos empregos nos EUA estão em risco até 2050. No Reino Unido, seriam 35%, na China, 63%, e na África Subsaariana alcançariam 83%. Um estudo da Mckinsey prevê que 15% dos empregos no mundo serão substituídos pela automação e inteligência artificial até 2030. Na geração passada, muitas pessoas trabalhavam em fábricas, tinham um salário razoável e usufruíam de planos de saúde e de aposentadoria. Esses empregos se perderam. Há um forte impacto da crescente desigualdade sob o ponto de vista da remuneração, bem-estar, consumo e até de expectativa de vida. E muito descontentamento. Isso acaba levando às mais variadas respostas protecionistas, de ampliação de gastos com infraestrutura a políticas de redistribuição de renda em torno de ideias como uma renda mínima universal. Educação será uma das mais importantes soluções para esse cenário e uma oportunidade de investimento.

Valor: A economia compartilhada também é uma solução e uma oportunidade de investimento?
Nahal: Temos de mudar a forma como vemos o trabalho e o emprego à luz das mudanças que a tecnologia vai trazer. Na área de transporte, 70% dos usuários de Uber nos EUA são millennials. Para eles é uma questão de ser mais barato, mas também acreditam na filosofia da economia compartilhada. No setor de vestuário, há sites de aluguel de roupas. Há serviços com mais de 6 milhões de usuários nos quais, por meio de uma assinatura mensal, você tem acesso a todo o acervo da plataforma. A economia compartilhada está criando empregos e também oportunidades de investimento. Sete das dez startups mais valiosas no mundo hoje são de economia compartilhada. E isso transpassa tanto economias avançadas quanto emergentes.

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