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» » » » » Os comentários fascistas nas redes sociais e a péssima qualidade de ensino no Brasil

Cláudio Gonçalves Couto é cientista político, professor da FGV-SP. Escreveu artigo (Valor, 08/01/18) cujo título indaga: Onde está o fascismo? De bate-e-pronto, eu responderia: encontra-se nos comentários imbecis de semialfabetizados a todas notícias que envolvam Lula ou o PT na “grande” imprensa brasileira e na rede social!

Em tempos de Trump, extrema direita europeia e aumento da radicalização política, talvez devamos levar a sério por aqui os pendores neofascistas. Em seu breve ensaio sobre “O que é o fascismo?“, George Orwell mostrava como a palavra se tornara, no pós-guerra, um termo com inúmeras serventias e pouco significado, deixando de ser conceito para virar xingamento ou metáfora. Alertava, porém, que o uso leviano do termo não eliminava a coisa à qual se referia.
Um dos modos de produzir a falácia conceitual apontada por Orwell é chamar de fascismo qualquer coisa que a ele possa ser associada: 
  1. por conter traços em comum,
  2. por seu posicionamento relativo num determinado espectro, ou
  3. por pura distorção.
(…) Tanto socialistas como fascistas são simpáticos a um Estado forte; contudo, como razões e propósitos são distintos, é embuste pinçar fora do contexto frases em favor de um Estado forte e testar a concordância com elas como prova de fascismo — ainda mais com amostra de respondentes enviesada. (…)

A falácia do posicionamento relativo é apontada por Orwell em seu ensaio, quando observa que setores da esquerda chamavam aos conservadores de fascistas. Ora, como tanto fascistas como conservadores estavam, por definição, à direita dos esquerdistas, foram postos no mesmo balaio, ainda que se situassem muito distantes uns dos outros. Vemos hoje situação similar, quando alguns denominam “comunistas” todos os situados à sua esquerda.
Por fim, a falácia da pura distorção ocorre quando termos são usados a esmo, pela simples confusão de coisas diversas. Veja-se o caso da reiterada afirmação de que “o nazismo era de esquerda”, baseada no fato de a organização de Hitler se denominar “Nacional-Socialista” e se declarar um “partido dos trabalhadores”. É este um caso de considerar literalmente o rótulo, ignorando o conteúdo e o fato de que esse rótulo foi um ardil propagandístico para cativar os trabalhadores. Ademais, ignora também a implacável perseguição dos nazistas à esquerda alemã de sua época.

Feitas as ressalvas e considerando as mudanças históricas desde sua forma original, o que se pode chamar na atualidade de fascismo ou neofascismo?
O fascismo apresenta características que às vezes se sobrepõem e que, isoladamente, são insuficientes para defini-lo:
(1) nacionalismo e patriotismo exacerbados, frequentemente xenófobos;
(2) autoritarismo, com uma estética e/ou retórica violenta;
(3) intolerância a grupos minoritários, vistos como ameaça à coletividade;
(4) crença no papel crucial de um líder forte;
(5) defesa ideológica de uma desigualdade fundamental, seja nacional, racial ou moral.
(…)

O neofascismo europeu combina as cinco características, mas é contido pelo contexto institucional, já que Estados democráticos de direito nacionais e a pressão regional europeia, freiam ímpetos autoritários de líderes e movimentos. Por isso, xenofobia, intolerância em relação a imigrantes e muçulmanos, líderes inflamados e a afirmação da superioridade dos nacionais se expressam mais abertamente do que o autoritarismo. E, na medida em que este potencializaria os demais elementos, sua contenção também refreia o resto.

No Brasil, etnicamente miscigenado e com uma população majoritariamente de pardos e negros, é improvável um movimento fascista de maior alcance que tenha na discriminação racial seu elemento propulsor, apesar de repetidos episódios racistas entre nós. O apelo de um forte discurso nacionalista é plausível, sobretudo na forma de patriotismo, dificilmente se voltando contra imigrantes, não percebidos como ameaças culturais ou econômicas. Já o autoritarismo e a crença em líderes fortes têm raízes profundas por aqui e ressoam com vigor no embate público.
Para que se combinem as cinco características do fascismo, teria de haver também algum tipo de perseguição contra grupos minoritários e a consequente afirmação de uma desigualdade fundamental. Se isso é improvável na forma racial, tem chances de prosperar na de tipo ideológico, moral e religioso:
  1. o anti-intelectualismo,
  2. a intolerância com a “doutrinação política nas escolas” e com a “ideologia de gênero”,
  3. o ataque neomacarthista a manifestações artísticas e intelectuais não enquadradas nos “valores da família”.
Sua consequência é a persecução aos desajustados, equiparados a uma espécie de escória patológica (“esquerdopatas”, “gayzistas”), que propagam crenças e adotam modos de vida incompatíveis com a conduta reta dos “cidadãos de bem” e das “pessoas comuns”. Neste formato, o fascismo já aparece entre nós e não é difícil identificá-lo.

PS [Fernando Nogueira da Costa]:
Quando leio os comentários neofascistas na “grande” imprensa brasileira ou, caso raro, na rede social, pois abandonei o Facebook depois da eleição de 2014 e os direitistas abandonaram esse modesto blog pessoal, já que viram que aqui não teriam espaço para postar tais comentários, eu fico abestalhado pelos erros ortográficos! São muito ignorantes os neofascistas!
Culpa do ensino sem qualidade ou da rede social por dar acesso a esse tipo de ignorantes? Serei menos condescendente: culpa deles mesmo por não se esforçarem por estudar e superar a ignorância . Além disso, perderam o pudor de demonstrar tal insuficiência educacional, já que encontram milhares iguais a cada um deles.

Leia a notícia abaixo publicada por Beth Koike (Valor, 08/01/18):

O número de polos de ensino a distância no país aumentou quase 90% nos seis primeiros meses de vigência das novas regras do governo para abertura dessas unidades, usadas para realização de provas e aulas. O Ministério da Educação (MEC) publicou decreto flexibilizando as normas em junho do ano passado. Na época, havia 7,1 mil polos cadastrados. Em dezembro, esse número quase dobrou para 13,2 mil.
O crescimento acelerado levanta questionamentos sobre a qualidade do ensino a distância, uma vez que muitas faculdades estão entrando nesse mercado sem ter experiência e com pouco investimento. Há instituições de ensino que cobram R$ 49 pela primeira mensalidade ou matrícula de cursos a distância.
Atualmente, o desempenho acadêmico dos alunos de cursos a distância, em geral, já é inferior. No último Enade, avaliação que mensura o desempenho dos estudantes que estão se formando, a nota dos alunos do curso de serviço social presencial foi 67% superior ao da graduação a distância.
A tendência é que nos próximos dois ciclos do Enade essa situação se mantenha devido à expansão exagerada de polos. O desempenho dos alunos dos cursos a distância já foi melhor há alguns anos, mas isso foi virando com a massificação sem incentivo à formação de bons profesores.
Com a maior concorrência, a expectativa é que o valor médio das mensalidades de cursos on-line, que hoje é de R$ 250, caia cerca de 40% neste ano. Para se obter um aprendizado on-line efetivo é preciso investir em material didático adaptado, tecnologia e polos bem administrados para evitar a evasão de alunos. Na graduação a distância, em média, só 30% dos alunos concluem o curso, contra 50% no presencial.
Muitos polos podem estar sendo abertos só para atrair alunos de determinadas praças, mas podem fechar as portas caso não haja demanda, comprometendo novamente a imagem desse segmento. Em 2008, o MEC fechou 1,3 mil polos por falta de infraestrutura e má qualidade dos cursos. Somente em 2011, o MEC retomou a abertura de novas unidades on-line. O MEC de antes não é o do governo golpista atual.

Questionado pelo Valor, o MEC informou que não há risco de queda de qualidade e que os cursos a distância são avaliados pelos mesmos critérios dos presenciais. “Além da estrutura exigida na sede da instituição, que deverá atender a todos os estudantes matriculados, a infraestrutura física, tecnológica e de pessoal desejável para um polo de EAD também será avaliada, de forma a garantir que a IES [instituição de ensino] mantenha estrutura adequada aos cursos ofertados e para o atendimento do quantitativo de estudantes na proporção das vagas autorizadas no processo de autorização e, posteriormente, nos reconhecimentos de cursos.”

Assim como no modelo convencional, a graduação on-line com conceito inferior a 3 (de uma escala de 1 a 5) também sofre sanções, como restrição de abertura de vagas e cursos.

Antes do decreto, o MEC só autorizava uma faculdade a atuar em ensino a distância após funcionários do ministério terem vistoriado pessoalmente todos os polos dessa instituição, o que levava em média dois anos. Agora, o MEC faz visitas in loco às sedes das instituições e aquelas com conceitos entre 3 e 5 podem abrir de 50 a 250 polos por ano.
“Grande parte das instituições de ensino superior cadastrou seus limites máximos anuais antes da virada do ano para não perder os quantitativos de polos que podem ter em 2017”, informou o MEC. Mas, nem todos os novos polos cadastrados já estão operando.

Pelo menos metade dos novos polos tende a fechar, porque não há demanda suficiente para uma quantidade tão elevada. A cada ano, 1,8 milhão de alunos se forma no ensino médio e cerca de 2 milhões ingressam no ensino superior. Ainda há muitas pessoas que concluíram o colégio, mas não foram para a faculdade, por isso existe essa diferença, mas esse ‘estoque’ é finito. Agora, é critério de avaliação de O Mercado!

O mercado de ensino a distância tem potencial para mais que dobrar de tamanho. Hoje, esse segmento conta com cerca de 1,5 milhão de alunos e há um potencial para a entrada de mais 1,8 milhão de estudantes. Analistas de mercado, que tratam Ensino como fosse uma mercadoria qualquer, levaram em consideração a existência de 4,4 mil cidades sem nenhuma faculdade para chegar a esse potencial de crescimento. Observam que é difícil mensurar quando esses números podem ser atingidos, porque dependem da melhora nas taxas de emprego e do preço das mensalidade dos cursos a distância.

A principal aposta do setor – e que pode favorecer a imagem desse mercado [?!] – é o ensino a distância híbrido, no qual uma parte do conteúdo é ministrado presencialmente e outra parte, on-line. Esse modelo é muito comum nos Estados Unidos, onde o aluno pode migrar do on-line para o presencial, e vice-versa, ao longo do curso.

No Brasil, vários grupos de ensino já começaram a apostar nesse formato misto, principalmente nas áreas de Engenharia e Saúde, que exigem aulas de laboratório e, consequentemente, a presença do aluno nos polos. A mensalidade média de um curso semipresencial de engenharia é de R$ 500 e uma graduação totalmente presencial custa pouco mais de R$ 1 mil por mês em instituições de ensino massificadas. Na Kroton, líder neste mercado com mais de 1,1 mil polos, 40% do conteúdo didático do curso híbrido de Engenharia é presencial e na área de Saúde, esse percentual chega a 60%.

Além disso, a credibilidade do ensino a distância tende a melhorar com a participação cada vez maior neste mercado de instituições como FGV, PUC, Mackenzie e Ibmec e as universidades públicas.

As quatro companhias de ensino superior de capital aberto estão adotando estratégias diferentes em ensino a distância:
  1. Kroton deve dar atenção ao curso semipresencial;
  2. a Estácio deve concentrar seus esforços em cursos 100% online;
  3. a Ser Educacional deve investir fortemente em abertura de polos e
  4. a Anima deve dar prioridade para cursos em que 70% do conteúdo é ministrado nos campi e os demais 30% a distância.
“Acreditamos que as empresas com experiência no segmento se beneficiarão, entre outros motivos, devido às parcerias já existentes com os donos dos polos de ensino a distância”, diz o analista do BofA, em relatório. A maioria dos polos de ensino a distância são administrados por terceiros — podem ser desde donos de escolas de inglês, que oferecem suas salas de aulas, ou empresários de outras áreas, com espaços disponíveis. Neste último caso, há o risco da falta de experiência no setor de educação e, consequentemente, maior evasão de alunos. (Por Fernando Nogueira da Costa)

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