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» » » » Os efeitos da reforma protestante na economia e na vida das pessoas

Impactos da Reforma Protestante


desenvolvimento econômico, suicídio, alfabetização feminina e antissemitismo. 
“Foi muito mais do que uma batalha sobre a teologia”, diz Sascha Becker, pesquisador alemão que investigou as principais consequências socioeconômicas desencadeadas pelas 95 teses de Martinho Lutero.Para o artigo completo de Becker, acesse “Causes and Consequences of the Protestant Reformation” (“Causas e Consequências da Reforma Protestante“, 47 págs., disponível em inglês).
TAXA DE SUICÍDIO
Com base no censo da Prússia do século 19, Becker e o economista Ludger Woessmann observaram que os protestantes eram duas vezes mais propensos a cometer suicídio do que os católicos.
A hipótese deles: por estimular o pensamento independente e o individualismo religioso, o protestantismo gerou comunidades com menos laços de convivência –ao contrário dos católicos, que eram mais integrados emocionalmente entre si.
Em uma nova análise, desta vez sobre a população da Alemanha atual, a diferença entre suicídios de católicos e protestantes sumiu. Os que mais se matam hoje em dia são aqueles sem religião (sobretudo jovens urbanos), o que reforça a ideia de que não é a teologia luterana que pesa, mas sim a sensação de isolamento.
ESCOLARIDADE FEMININA
Para Lutero, a Bíblia deveria ser lida por todos os fiéis, fossem eles homens ou mulheres.
Ainda analisando dados da Prússia do século 19, Becker observou que “diferenças entre áreas protestantes e católicas traduziam-se em diferenças de escolaridade feminina”.
Segundo o estudo, a reforma levou a um surto de construções de escolas para meninas em áreas protestantes e diminuiu o vácuo de educação básica entre garotas e garotos das regiões protestantes.
DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO
O sociólogo Max Weber (1864-1920) relacionou a “ética de trabalho” protestante –mais especificamente à calvinista– ao espírito do capitalismo.
Benito Arruñada, economista espanhol, revisitou essa tese. Ele analisou dados da década de 1990 de países desenvolvidos e, a partir de parâmetros como horas trabalhadas e sucesso profissional (que usava dados de salário e alcance de cargos de gerência), encontrou poucas evidências em favor da teoria de que protestantes trabalham mais e melhor.
De acordo com o artigo de Arruñata, porém, os valores das comunidades protestantes estimulam indivíduos a estabelecer forte rede de “controle social mútuo”, o que levaria a uma maior eficiência das instituições, cumprimento das leis e, consequentemente, a maior desenvolvimento econômico.
SEGURIDADE SOCIAL
O historiador britânico Brian Pullan, professor emérito da Universidade de Manchester, argumenta em seu trabalho “Catholics, Protestants and the Poor in Early Modern Europe” (Católicos, Protestantes e os Pobres na Europa Moderna Antiga), do Journal of Interdisciplinary History, que a Reforma Protestante também trouxe contribuições para seguridade social.
Financiadas pelos fechamentos de mosteiros, leis de alívio à pobreza teriam surgido nas partes protestantes da Alemanha e se espalharam pelo norte da Europa.
ANTISSEMITISMO
Em 1543, Lutero publicou o livro “Sobre Judeus e suas Mentiras“, no qual recomendava a queima de sinagogas.
A influência dessas ideias para a conduta dos protestantes é incerta. Sob a perspectiva socioeconômica, entretanto, é possível ir mais além.
Junto com o economista italiano Luigi Pascale, Becker mapeou ataques a comunidades judaicas e publicações com conteúdo antissemítico no período de 1450 a 1900 na Alemanha. Foi percebido que a hostilidade a judeus era maior em áreas de maioria protestante.
Os protestantes não consideram a usura um pecado, o que permitiu que entrassem no mercado de empréstimo de dinheiro e no setor bancário, ambos dominados pelos judeus. É provável que a competição tenha gerado maior antagonismo entre os dois grupos.
VOTOS PARA O PARTIDO NAZISTA
Na república de Weimar, na Alemanha do entreguerras, as regiões católicas do país votavam majoritariamente no Zentrum, partido centrista.
Jorg Spenkuch, da Universidade Northwestern, documentou uma maior tendência dos protestantes a votar nos partidos extremistas, sobretudo no partido nacional-socialista de Adolf Hitler.
De acordo com o acadêmico, não há consenso sobre o motivo pelo qual grande parte dos protestantes tendia às plataformas mais radicais.
Há autores que atribuem o sucesso eleitoral do nazismo em regiões protestantes a uma resistência à cultura católica. Outros atribuem a interesses econômicos divergentes.
Sabe-se que Adolf Hitler foi batizado na Igreja Católica. No best-seller “Minha Luta“, o ditador alemão diz seguir “princípios cristãos”. Há um capítulo intitulado “Deus Abençoe Nossa Luta” e uma passagem que diz: “Ao me defender dos judeus, estou lutando em favor do trabalho de Deus”.
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Para o artigo completo de Becker, acesse “Causes and Consequences of the Protestant Reformation” (“Causas e Consequências da Reforma Protestante”, 47 págs., disponível em inglês).
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“Há muito tempo se diz que o Brasil é a maior nação católica do mundo. A afirmação pode passar por óbvia, dadas as dimensões de sua população, mas de todo modo expressa a predominância dessa crença por aqui.
Em termos absolutos, o Brasil não deixou de ser o líder em contingente de católicos, mas se tornou também um dos maiores países protestantes do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos e da Nigéria – e talvez da China, de estatísticas duvidosas.
A proporção nacional desses religiosos, em torno de 32% segundo pesquisa do Datafolha, assemelha-se à verificada na Alemanha, onde há 500 anos surgiu o movimento mais tarde chamado de reforma protestante.
Meio milênio de mudanças profundas na civilização esvazia quase todo o sentido de uma comparação dos fiéis brasileiros com os discípulos de Lutero ou Calvino.
A ideia se torna ainda menos pertinente quando se consideram a natureza dessa religião no Brasil moderno e sua miríade de denominações. Dois terços dos seguidores são pentecostais, variante que surgiu nos EUA apenas no início do século 20.
O protestantismo reproduz também no Brasil um traço distintivo de sua inovação:
  1. a afirmação da fé individual,
  2. a disseminação da ideia de pluralismo e liberdade religiosas,
  3. a possibilidade de contestação contínua de doutrinas, liturgias ou estruturas eclesiásticas.
Decerto as correntes nacionais contrastam com as versões modernas de sua contraparte europeia, as igrejas reformadas originais – que prezam mais a aproximação com o catolicismo, além de aceitarem de modo mais amplo a separação entre lei e Evangelhos.
Mais uma vez, porém, é preciso levar em conta a diversidade das denominações brasileiras, tantas vezes associadas, em parte da opinião pública,
  1. à teologia da prosperidade ou
  2. à política partidária.
A Congregação Cristã do Brasil, por exemplo, rejeita
  1. o proselitismo midiático,
  2. a politização e a crença no imediatismo dos efeitos da fé.
Os evangélicos também se distribuem cada vez mais por diversas classes de renda e instrução.
A transformação religiosa do Brasil, apesar de veloz e muito evidente desde os anos 1990, ainda é fenômeno pouco conhecido, com implicações sociais e políticas frequentemente reduzidas a um debate esquemático, tanto mais quando se nota que a difusão da fé protestante começa a ganhar outros contornos, uma nova reforma.”

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