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» » » » A economia da felicidade



Aloisio Campelo Junior é economista e Superintendente de Estatísticas Públicas da FGV/IBRE. Publicou artigo (Valor, 21/09/17) sobre tema que dei palestras recentemente: Conversa com Fernando Nogueira da Costa – Economia da Felicidade e da Boa Vida. Registro sua resenha da literatura abaixo.
“O historiador israelense Yuval Harari argumenta em seu best seller “Homo Deus” que a busca pela felicidade será um dos três grandes temas da agenda humana para este século. Ele tem boa chance de estar correto em sua previsão.
Nos últimos 20 anos, medidas de bem-estar subjetivo tornaram-se populares na avaliação do progresso social e econômico das nações, na forma de informação suplementar a indicadores tradicionais como PIB e IDH. A profusão de estudos sobre o assunto levou ao batismo de um novo ramo, a Economia da Felicidade. A relevância dos resultados obtidos até aqui e esperados para o futuro pode ser atestada pelos diversos projetos conduzidos por nações e órgãos multilaterais voltados à compreensão dos fatores determinantes do bem-estar e suas consequências para a política econômica, muitos deles envolvendo prêmios Nobel.
Um marco para os economistas foi o trabalho de Richard Easterlin (1974), mostrando que a renda per capita dos EUA dobrou entre 1946 e 1970 enquanto os indicadores de felicidade teriam ficado estáveis. De lá para cá muitas águas rolaram, pesquisas foram realizadas com bases de dados mais abrangentes, negando ou reinventando o famoso “paradoxo de Easterlin“. O consenso atual parece ser o de que a renda influencia positivamente o bem-estar, mas os ganhos diminuem à medida que aumenta a renda, seja de um país ou de um indivíduo.
A evidência da Sondagem do Bem-Estar, da FGV/IBRE, caminha neste sentido. A pesquisa entrevistou 2500 pessoas no Rio e em São Paulo no segundo semestre do ano passado, com perguntas de natureza subjetiva sobre a percepção de bem- estar e em relação a temas como a qualidade de serviços públicos, confiança nas instituições, etc. Na maioria delas, o respondente era chamado a dar uma pontuação, de 0 a 10, para a variável em questão.
Em linha com a evidência internacional, o estudo confirma que o nível de renda afeta o bem-estar subjetivo, mas está longe de explicar tudo. A satisfação com a vida do brasileiro aumenta com a renda a taxas decrescentes, registrando ganhos expressivos nas famílias de baixa renda e muito pequenos nas mais ricas.
Outros estudos com dados brasileiros haviam mostrado resultados parecidos anteriormente. Marcelo Neri (2014), por exemplo, concluiu, a partir de uma base de dados de 2012, que a felicidade do brasileiro é “relativamente pouco sensível à renda” e que “boa parte da relação entre renda e felicidade no Brasil é explicada pela passagem daqueles sem renda para a faixa de menor renda positiva pesquisada”. Esse fato sustenta o argumento a favor da manutenção de programas de transferência de renda focalizados na população extremamente pobre.
Na pesquisa da FGV/IBRE, os ganhos de bem-estar subjetivo são tão pequenos a partir de certo nível de renda que não se pode descartar a hipótese da existência de um limiar a partir do qual a renda deixe de influenciar a satisfação com a vida. A literatura internacional é controversa nesse ponto.
Já o bom desempenho relativo do Brasil e de outros países da América Latina nos rankings internacionais de felicidade, um fato conhecido ainda que pouco explicado. Na Sondagem do Bem-Estar, o nível médio brasileiro de satisfação com a vida ficou em 8,0 pontos, parecido com o observado na World Values Survey de 2014, em que o Brasil aparece com uma pontuação superior ao que seria esperado dado seu nível de renda per capita.
Um dos fatores citados em alguns desses estudos para explicar o bom desempenho da região seria a existência de importantes redes de convívio e apoio social. O argumento precisa ser melhor elaborado, mas não pode ser descartado: a Sondagem da FGV/IBRE identificou um ganho de felicidade nos indivíduos que reportam sentimentos positivos ao lembrar da família.
Outros fatores importantes na sensação de bem-estar individual de cariocas e paulistanos foram:
  1. a percepção de qualidade dos serviços públicos,
  2. o sentimento de propósito na vida ou
  3. o estado de saúde.
Com relação ao grau de escolaridade, o resultado é dúbio. A pesquisa não identificou ganhos de bem-estar para indivíduos com nível superior de ensino, mas encontrou significância na percepção de escolaridade comparada à de outras pessoas da mesma faixa etária. O resultado pode ser explicado pelo conceito de adaptação hedônica: o ser humano tende a se adaptar a uma nova situação e passar a exigir de si novos avanços, numa corrente infindável e insaciável de desejos. Chamem os psicólogos.
A Sondagem identifica uma influência do desemprego sobre o nível de felicidade quando diversos fatores são controlados, sugerindo não ser apenas a perda de renda que leva o indivíduo a reportar menores níveis de satisfação com a vida quando está desempregado. A perda do emprego também produz um efeito negativo na autoestima.
Por fim, há muito que se caminhar no campo da Economia da Felicidade. No caso de uma economia em desenvolvimento como a brasileira, em que uma parcela expressiva da população não aufere renda suficiente para atender a necessidades básicas, a combinação de crescimento com redução de desigualdade continuará sendo por um tempo uma condição importante para elevar o bem-estar da população.”
Para Reflexão: letra do Funk Ostentação “Combina Comigo”

Dinheiro no bolso, festa na mansão
Mulher e pouca roupa é igual sol e verão
O sucesso me almeja, a natureza, a chuva
Eu e minha ganância se completam como luva

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