Por Marco Damiani, no BR2Pontos
Não dá para segurar o ministro-chefe de Governo, Geddel Vieira Lima, no cargo, depois de ele confirmar ser proprietário de um apartamento em construção de 259 metros quadrados, em Salvador, em defesa do qual procurou por nada menos que cinco vezes, ao longo dos últimos seis meses, o então ministro da Cultura, Marcelo Calero. Como se sabe, Calero pediu demissão do cargo, prontamente aceita pelo presidente Michel Temer, sob a alegação de ter sido pressionado por Geddel para acelerar, no âmbito do Iphan, uma aprovação necessária à execução da obra.
Com 24 andares, o empreendimento La Vue da Ladeira da Barra só tem autorização do patrimônio histórico para ter 13 pavimentos. Geddel admitiu ter comprado, em 2009, o do 23º andar. Pelo prédio, de resto, o ministro baiano, no melhor estilo jagunço, brigou com futuros potenciais vizinhos, entre eles a família Mariani, de históricos banqueiros locais (cujo imóvel de moradia perderia a vista para o mar em razão da altura da torre defendida por Geddel), e vereadores soteropolitanos.
Eticamente, não dá para segurar Geddel no cargo, cujo gabinete fica no Palácio do Planalto. Pressionar outro ministro em causa própria deve ser vetado até na cartilha de ética da Coréia do Norte. Mas, como aqui é Brasil e Geddel é peça importante da articulação política do presidente Michel Temer no Congresso, está em curso a operação segura Geddel. A comentarista Cristiana Lobo, da Globo News, participa, aparentemente, de mais esta peça. Gaguejando, e sem se aprofundar, ao contrário do que fazia, seis meses atrás, antes de o governo Temer ser instalado, em relação a outros personagens, ela procurou, na tarde deste sábado 19, por volta das 18h00, suavizar ao máximo a situação.
De cara, a colunista global comprou a versão de Geddel de que não teria pressionado, mas tratado civilizadamente do assunto com Calero. Mas nem para a, desta vez, tímida Cristiana deu para segurar. Reconhecendo que “procurar um ministro cinco vezes para tratar de um assunto de interesse pessoal pode ser visto como uma forma de pressão”, ela qualificou de “inadequado” o comportamento do ministro-chefe de Governo, jogando a decisão para o presidente Temer. Discreta e rapidamente, ela lembrou que Temer aceitou a demissão de Calero, só não disse que, pelos mesmos motivos (a pressão, a quebra de decoro, a desfaçatez como Geddel usou seu cargo para obter o concurso do ministro para acelerar a aprovação do empreendimento no Iphan), o presidente tem de, necessariamente, tirar Geddel de sua honesta equipe.
O comunista que virou suco, ops!, que virou ministro da Cultura, Roberto Freire, assumiu o cargo falando em mudar a Lei Rouanet, de financiamento cultural, e em ajudar as investigações sobre desvios em sua aplicação. Sobre as circunstâncias em que assume o cargo, é claro, Freire não deu um pio, nem sobre o caso lhe foi perguntado pela Globo.