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» » » » Luiza Erundina diz que Michel Tmer vai ser um presidente fraco, uma pessoa diminuída e que vai ter dificuldade de se apresentar em público

Por Alex Solnik, do 247
Antes de tudo uma forte, Luiza Erundina entra na corrida a prefeita de São Paulo sem se abalar pelo fato de ter direito a exíguos segundos no horário eleitoral e não poder entrar nos debates televisivos. “Vamos montar palanque nas portas das emissoras”, avisa nessa entrevista exclusiva ao 247.
Compara dois de seus adversários – Dória Jr. e Russomano - a Maluf, que derrotou espetacularmente em 1988 e critica a “guinada à direita” de Marta. “Ela não tem escrúpulos”, dispara.
Convencida de que o impeachment vai passar, afirma que Michel Temer “vai ser um presidente fraco”, “uma pessoa diminuída” que “vai ter dificuldade de se apresentar em público”: “a marca de traidor, a marca de conspirador, a marca de usurpador da soberania popular vai estar lá na testa dele; ele não se recupera, nem tem como se recuperar”. 
Não acredita em Aécio 2018: “Ele está combalido, assim como Temer”. Nem em Serra: “O Serra... pelo amor de Deus”! “O Alckmin é uma figura que está despontando para ser o presidente da República”, arrisca. E arremata: “Brincadeira, né”. 
Afirma que Eduardo Cunha “tem uma enorme influência na Câmara”, suspeita que sua cassação só será votada depois das eleições de outubro graças ao atual presidente da Câmara, Rodrigo Maia, “uma figura diminuída”, que “faz o jogo do Cunha o tempo todo”. “Não entendo como setores do PT o apoiaram”, lamenta, “inclusive Lula”.

Tem alguma chance da Dilma voltar ou já está definido?
Eu acho que está definido. Esse resultado da votação da pronúncia dela de 59 a 21 é um sinal de que o resultado vai ser esse no final.  Ela não fez a política, nem mesmo nessa fase crítica. Ela teve muita dificuldade de lidar com o jogo político. E tem muita gente.... o Cristóvão...as pessoas se revelam nessas situações... mas, tudo bem, cada um é cada um e vai responder perante a história e perante a sua consciência.    
O que você prevê nesses dois anos de Temer?
Olha, acho que vai aprofundar a crise no sentido político, mas o pacto de classe deles vai se fortalecer... o conservadorismo... as forças que sempre estiveram no poder vão permanecer sempre no poder. E ele é o foco do poder. A área econômica veio de encomenda, né. Veio para fazer a política dos rentistas. Do capital. E é uma equipe competente na defesa dos interesses deles. E é uma equipe que está agindo, está intervindo. Vai ser um presidente fraco, mas com uma área econômica forte e que vai controlar o jogo. E ele vai ficar sempre uma pessoa diminuída, a meu ver. Pela forma como chegou ao poder. Ele vai ser sempre uma pessoa que vai ter dificuldade de se apresentar em público. Veja a dificuldade que ele teve para se apresentar nas Olimpíadas. Então, em qualquer lugar que ele for a marca de traidor, a marca de conspirador, a marca de usurpador da soberania popular vai estar lá na testa dele. Ele não se recupera, nem tem como se recuperar. Ele nunca foi uma liderança de fato. Sempre teve dificuldades para se eleger. Na última eleição para deputado ele ficou na rabeira, ficou contando os votos, um a um para ver se não ficava fora. Ele nunca foi bom de voto.
Não tem identidade com o povo brasileiro...
Não, não.
O país dele é outro.
Com certeza. Veja a que ponto a gente chegou. Não pode ser um governo estável quando ele se consolidar na função, embora a sociedade esteja muito desmobilizada. Veja bem, nesses últimos dias, prévios à consolidação do impeachment não teve nenhum movimento de massa. A sociedade cansou. Até mesmo os movimentos cansaram. Não viram ao longo desses quase dois anos nenhum resultado, nenhuma vitória. A realidade está dada.
Qual é o projeto do Temer?
Ele nunca teve projeto. Nunca teve... e a forma como ele chegou ao poder é algo que não recomenda. Além de ser inelegível, as delações que estão aparecendo aí atingem ele profundamente, mas só que o tratamento que é dado pela imprensa ao caso dele e aos casos de outros que estão fortemente atingidos por essas delações são diferentes, a imprensa trata de forma bastante secundarizada. Não se cobra deles. Depois da consolidação do impeachment esses dados da Lava Jato vão ser esquecidos, vão ser colocados debaixo do tapete, mas, de qualquer forma com o desdobramento da sua presença no governo, espero que essas denúncias sejam apuradas. Mas a presença dele, mesmo interino, já está deixando frutos amargos para os trabalhadores, em relação a desigualdades, a perda de conquistas, o aprofundamento da pobreza, das desigualdades sociais e esse projeto da renegociação das dívidas dos estados é um horror, penaliza o trabalhador, quem vai pagar a conta nos estados vai ser o trabalhador, os trabalhadores públicos em geral que terão seus salários congelados por dois anos, os cortes em saúde, educação e nas políticas sociais também vão recair sobre os servidores púbicos, que não terão mais reajustes, nem mesmo reposição das perdas inflacionárias...e a PEC que vai aprofundar essa questão do ajuste fiscal na perspectiva de garantir o superávit primário para pagar juros sobre juros que é o que está nessa negociação da dívida dos estados... é juros sobre juros, uma bolha sem fim, e essa dívida cresce, tanto dos estados como dos municípios e a vida nacional... e esse garroteamento dos estados e municípios tem base no compromisso desse governo com os credores nacionais e internacionais... o sistema financeiro nacional e internacional...com o pagamento dessa dívida que já atinge quase 3 trilhões ou mais de 60% do PIB já carimbado para pagar essa dívida, que é impagável... quem paga isso é o povo em relação aos seus direitos.
Voltamos uns trinta anos, não é?
Ah, é, eu acho. Vamos ter muita dificuldade. Que essa turma tem seus mecanismos de preservação.  De autopreservação. E eles no poder, com todos os controles. Mas as contradições internas, mais cedo ou mais tarde, a própria luta pelo poder.
A primeira briga vai ser em torno de 2018. O Aécio esperava ser o candidato à presidência com apoio do PMDB, mas eles já estão falando, alguns no próprio Temer e outros no Meireles.
Aécio está combalido também. Assim como Temer.  Tá combalido. Essa turma toda. O Serra... pelo amor de Deus! O Alckmin é uma figura que está despontando para ser o presidente da República. Brincadeira, né.
Mas será que ele tem voto?
Teve mais votos que o Serra.
O que está acontecendo nesse país, hein?
Ah, meu irmão, tá complicado, tá cada vez pior, viu Alex? Esse processo de impeachment de cartas marcadas que não tem fim...então, realmente é algo muito triste...o saldo disso vai ser muito ruim para a democracia brasileira...as perdas que nos custaram tanto e que custaram tanto ao Brasil... os direitos sociais, os direitos humanos, a própria democracia política...é uma perda muito grande. Mas, apesar de tudo tem o aspecto de que esse processo terminou suscitando muito debate político pela sociedade. E as redes sociais têm contribuído muito para isso. Agora na campanha eleitoral nós temos feito muita roda de conversa, debate político mesmo, não só a respeito da questão eleitoral, e tem sido muito interessante ver as pessoas que estão mais afastadas da política, que já estiveram na militância, com posições políticas ideológicas avançadas, modernas, de esquerda, que foram se afastando, se desencantando, se desinteressando... esse pessoal está voltando e voltando, assim, com muita vontade de contribuir com o debate... isso é uma consequência importante de um processo muito destrutivo e, de qual modo, quem sabe, a sociedade, ou parte dela está percebendo da necessidade da política. De qualquer forma, resta uma esperança, vamos mantendo a nossa perspectiva de que a história não anda pra trás, ela dá saltos e trazer de volta aqueles que já tinham se afastado e trazer de volta os jovens.
Como foi possível o PSDB se unir ao PMDB e com pessoas de extrema-direita, como Ronaldo Caiado?
Pois é, Alex, por isso é que eu saí desse partido...você falou do PSB, é isso?
Não, falei do PSDB, mas o PSB também fez igual...
O PSDB não tem mais cara... uma hora é a cara do DEM... outra hora é a cara do PP... outra hora é a cara de quem quiser...
Em 1988 você impôs uma grande derrota ao Maluf nas eleições a prefeito de São Paulo. Quem é o Maluf dessa eleição? O Dória Jr. seria o mais parecido com ele?
Está tão misturado o quadro aí... o Dória... o Russomano mesmo...a Marta... a guinada que a Marta deu à direita...embora ela nunca tinha sido de esquerda, ela nunca foi ideologicamente posicionada... ela nunca foi essa pessoa...ela veio na garupa do Suplicy, uma pessoa muito respeitada, de muito apelo popular...ela surfou nessa onda...mas a saída dela do PT foi algo inaceitável... até há pouco tempo ela tinha sido ministra...foi ministra duas vezes, de dois governos...e, de repente, sai batendo... sai tentando jogar lama...então, não é assim que se faz. Tudo bem, eu também tenho saído de partidos, entendendo que você não pode sair jogando o menino junto com a água da bacia fora...ela carrega muito aspecto a ser cobrado e a ser exigido explicações...e depois ela diz que saiu do partido para enfrentar o problema da corrupção e falou isso ao lado do Cunha, ao lado do Temer, ao lado do Renan... então, o discurso não bate com a imagem real... ela tem muito esquema, tem muita estrutura...não tem escrúpulo. Então, o quadro em São Paulo é bastante pobre...tem o Haddad que é uma alternativa no nosso campo, mas está com muita dificuldade, seu governo não conseguiu firmar uma  identidade, não criou uma marca. Seu governo fez coisas positivas, temos que reconhecer, mas não pensou a cidade como um todo e não interveio na cidade de modo a atentar para as peculiaridades...São Paulo não é uma cidade só... são 32 cidades... a região metropolitana é enorme...É um quadro muito pobre em São Paulo, não em relação às figuras, mas em relação a projetos. Que projetos essas figuras têm? Nem se fala nisso, nem se faz qualquer relação entre o processo eleitoral e o quadro nacional, isso é lamentável, sobretudo numa cidade da importância e da responsabilidade política que tem São Paulo, a maioria dos candidatos não atentam para os graves problemas nacionais. A forma como está se dando a disputa eleitoral, inclusive em São Paulo, é parte dessa crise.
Como a Dilma perdeu a maioria tão rapidamente?
É que não era uma maioria orgânica...não era uma maioria unida em torno de compromissos políticos e que é uma consequência do presidencialismo de coalisão, é um presidencialismo centrado numa figura, cuja governabilidade fica a depender de uma maioria congressual que é eventual, até por conta da desagregação partidária...da perda de identidade dos projetos partidários, a relação governo-Legislativo é individual, nem é com cada bancada. Você imagina 513 deputados, cada um com seus próprios interesses, todos muito localizados, muito fisiológicos. É um modelo a ser modificado. Além de não terem tido, os governos Lula e Dilma uma relação orgânica com a sociedade organizada, com os movimentos populares, com os movimentos sindicais... foram relações eventuais, mas não como estratégia, mas não como projetos estratégicos, até pensando na governabilidade. A governabilidade não pode ficar restrita à relação do Executivo com o Legislativo, uma base congressual e uma base legislativa. Se isso não se ampliar para uma aliança com os movimentos sociais, com os movimentos sindicais, com a sociedade civil você não garante essa governabilidade. E rapidamente se perde essa maioria ou essa maioria é circunstancial, depende do interesse de cada um em relação às iniciativas do Executivo e isso vai exigindo cada vez mais concessões por parte do Executivo e a derrocada da presidência da Dilma foi exatamente isso. Ainda hoje você vê esse projeto da renegociação da dívida dos estados, que penaliza os servidores públicos e a população em geral, com os cortes que vão ocorrer no orçamento da Saúde e das políticas sociais é uma proposta da Dilma. Então, quando se insurge contra a aprovação dessas matérias logo os opositores alegam “mas isso veio do palácio do governo”. E é verdade. Então, ela chegou ao fundo do poço nas concessões que teve que fazer ao capital... à direita...e às exigências fisiológicas de sua base congressual...ela não tinha uma condição de governabilidade estável, orgânica e não construiu essa aliança com a sociedade civil organizada, com o movimento sindical. Foi o que eu sempre cobrei desses governos porque eu vivi essa realidade em São Paulo.
Como você governou em 1988 sem maioria?
Quando eu fui prefeita eu não tive maioria na Câmara durante os quatro anos. Porque também para ter a maioria eu teria que ter feito concessões, que não são limitadas... você concede uma coisa, eles querem mais amanhã, mais depois de amanhã e aí fica ingovernável e você perde o controle e perde seus compromissos. Então, foi difícil governar quatro anos com minoria na Câmara? Foi. Mas, a aliança que eu tinha com os movimentos populares que me defendiam, sem nenhuma cooptação de nossa parte, só porque eles se reconheciam no governo, na representação nossa naquele governo, foi que permitiu que se chegasse ao final do governo apresentando saldos, apesar da minoria permanente na Câmara. Essa minha experiência, uma experiência no sentido oposto do governo Dilma mostra isso. Nós, que somos de um campo que queremos uma política para fazer mudanças estruturais, de modo a resolver os grandes problemas da sociedade, se ficarmos a depender dessas bases legislativas, lamentavelmente nós vamos ceder os anéis, depois vamos ter que ceder os dedos, ceder os braços...Temos que governar sem fazer concessões inaceitáveis em relação ao projeto  original dessas forças políticas e que dão sentido e identidade ao fato de estarmos disputando fatias do estado, com o caráter que tem, para dentro dele fazer cunhas... aproveitar momentos de explorar as contradições internas do processo político, do processo partidário-eleitoral e procurando mudar a cultura política, a forma de ser governo, a relação povo-governo, radicalizando a democracia, criando mecanismo efetivos de democracia direta, sem que isso implique em concessões do nosso projeto político e ideológico e programático.
Você acha que o Cunha ainda tem forte influência na Câmara?
Ele tem uma enorme influência! Tanto é que ele já conseguiu empurrar o momento de se pautar aqui na Casa a discussão de sua eventual cassação, isso só vai acontecer depois do impeachment, e eu não duvido que isso fique para depois das eleições municipais e o cara está sendo poupado e tem uma enorme influência aqui dentro. Tanto é que ele influenciou nas eleições para a presidência da Câmara, nós não nos juntamos, isso é que nos cobram, mas a cobrança tem que ser para todo mundo, não só para um ator desse jogo. Por que nós não nos unimos? Porque não se unificam pessoas, se unificam propostas, ideias, projetos e nós fomos incompetentes e não conseguimos gestar esse projeto que tivesse a nossa cara, nossa identidade, nossos compromissos históricos, é isso que faria sentido cobrar unidade dessas forças se de fato existisse um projeto em relação ao qual nós tivéssemos algum consenso e, portanto, alguma possibilidade de nos juntarmos.
O Lula ainda é uma grande liderança apesar de todo o desgaste?
Não tenho a menor dúvida. Muito desgastado, até pela forma como a mídia o trata e trata em situações que o atingem, mas ele ainda... a perseguição a ele só não foi aprofundada, a meu ver face a essa enorme popularidade que ele ainda tem. Lamentavelmente o PT, a meu ver está inviabilizado, nos termos do partido que ele foi e a figura do Lula, que era a figura maior também sai bastante dilapidada. Mas ele tem, na minha avaliação, muito apelo popular ainda. Pelo carisma dele, pela liderança dele, pela competência dele, apesar de tudo. Eu acho que esse é um dos prejuízos que nós tivemos ou temos tido politicamente, é o desgaste da maior liderança política, com essa popularidade que tem o Lula e com sua competência política. Mas ele também fez muitas concessões, do ponto de vista dessa convivência com a direita, com o conservadorismo que esteve no poder desde a ditadura, depois com a redemocratização, eles estão sempre do mesmo lado, que é o lado do poder e terminou, a meu ver, o PT cedendo a essas tentações e fazendo coro com essa turma que não fala a nossa linguagem, não tem a história que nós trazemos, nosso currículo – não individual, mas coletivo – nossa força política. Então, essa é uma perda inestimável, para recuperar isso vão ser precisos mais trinta anos, como foi preciso para construirmos o Partido dos Trabalhadores.
Foi por isso que você saiu do PT?
Não, não foi por isso só. Isso está muito distante, saí do PT há dezenove anos, eu fiquei mais tempo no PSB, que foi o partido para onde eu fui depois do PT e dizendo isso “eu estou mudando de casa, mas na mesma rua”. Porque eu reconhecia, naquele momento que o PSB e o PT eram da mesma esquerda da qual eu nunca me afastei. Eu costumo dizer aos companheiros... um dia, quando estava se discutindo a candidatura à presidência da Câmara, na presença de deputados do PT, numa discussão muito franca entre nós eu disse “olha, eu não saí do PT, o PT foi que saiu de mim”.  Naquele tempo já havia um distanciamento do partido dos seus compromissos históricos. Da sua utopia, identificada com o socialismo. Eu tive muita dificuldade na relação com o partido no âmbito municipal. Eu sofri mais com o PT durante a minha gestão do que com os adversários. Com os inimigos de classe que estavam na Câmara Municipal, na sociedade, enfim... O partido não entendeu como não entende hoje ainda o que foi aquela conquista, naquele momento...acabávamos de sair da ditadura militar... a vigência da nova constituição... o partido não entendeu a importância histórica daquela vitória. Nunca aceitou que eu tivesse sido a candidata, numa prévia, ter ganho de um candidato que era o preferido das direções, desde a nacional até a municipal, que era Plinio de Arruda Sampaio, uma figura também admirável, mas do ponto de vista daquele momento, das nossas posições, a minha posição e a minha liderança política, reconhecida pelas bases...foi por isso que eu ganhei a prévia, mas durante todo o tempo do governo sofrendo um tratamento muito injusto por parte da direção partidária da capital, com Rui Falcão às vezes... eu apanhava da direita e apanhava da esquerda e apanhava do próprio PT...todo mês, a direção municipal, tendo na presidência o Rui Falcão fazia uma avaliação do nosso governo, muito negativa, publicava na imprensa e só depois eu tomava conhecimento através da imprensa. Então, não foi fácil... o PT não entendeu a conquista histórica que foi a vitória na maior cidade do país, com uma história de direita na cidade. E o partido não ajudou, pelo contrário, atrapalhou muito. Nos tratou como sendo adversários internos do partido. São coisas que, avaliando depois de mais de 25 anos a gente lamenta. Não foi uma vitória só do PT, foi uma vitória das forças progressistas...
O Mário Covas te apoiou no segundo turno, não foi?
Sim, mas eu também apoiei Mário Covas em alguns segundos turnos...havia uma visão estreita do partido que depois que conquistou o poder abriu-se demais para o outro lado, entende? Naquele momento era um radicalismo, um sectarismo...radicalismo é certo, o que não é aceitável é o sectarismo. Quando você governa uma esfera de poder do estado com menos poder, tendo o Tribunal de Contas do município como um instrumento político contra o governo, tendo o governo do estado, que foi inicialmente Quércia e depois Fleury, e no plano federal foi o Sarney e depois o Collor. Então, desgraça maior é impossível! Se o partido tivesse entendido o significado daquela vitória eleitoral, a conquista daquele governo, teria concentrado todas as suas forças, toda a sua energia na defesa daquela experiência e na ajuda para que ela tivesse sucesso, não para que Luiza Erundina tivesse sucesso, porque não foi um sucesso que se deve a mim e sim a setores do partido... um primeiro escalão de primeiríssima qualidade... que de fato vestiu a camisa daquela proposta... Paulo Freire na Educação, Marilena Chauí na Cultura, Paul Singer no Planejamento, só para nomear alguns...
Era praticamente um ministério...
Qualquer governo competente teria tido inveja daquele “ministério”...e, sobretudo, houve aliança, nos quatro anos, com os movimentos sociais, com os movimentos populares... a população da periferia... as comunidades eclesiais de base... os setores progressistas da Igreja... foi isso que garantiu que eu chegasse ao final do governo apesar da má vontade da direção partidária, permitiu que eu chegasse à condição de, depois de 27 anos, meu nome ser cogitado para, quem sabe, disputar o segundo turno nas eleições de São Paulo...tá muito cedo ainda... mesmo porque não temos tempo de televisão... não vou ter direito, por uma lei que o Cunha aprovou aqui na Casa, com a relatoria do Rodrigo Maia que impede que partidos com menos de nove deputados possam participar de debates com os outros candidatos. O meu partido tem seis deputados e tempo de televisão de segundos. Então, olha, para enfrentar isso... eu não sei como vai chegar aos meus eleitores o conhecimento de que eu sou candidata...são mais de oito milhões de eleitores na capital...mas, apesar disso, tem muita lembrança do nosso governo, tem muita presença das conquistas da população naquele governo na periferia da cidade, em todas as áreas sociais, então, se a gente alcançar essas pessoas, quem sabe haja uma surpresa como ocorreu em 1988.
Você não estará nos debate da televisão, então?
Não. Estamos lutando contra essa proibição, a lei da reforma eleitoral que foi feita na época do Cunha e entramos com uma petição (ADIN) no Supremo...não temos muita expectativa, a ministra é a Rosa Weber...então, estamos conversando com todos os ministros e com os candidatos...se 2/3 dos candidatos aceitassem minha presença trairia a eficácia desse dispositivo de lei, eu poderia participar do debate, mas não consegui o apoio dos outros candidatos...então, provavelmente, eu estarei fora dos debates...mas nós já avisamos às emissoras: nós vamos montar um palanque na porta da emissora com som bem forte, e vamos fazer um debate com o povo na porta da emissora... e vamos exigir que ponham uma cadeira vazia lá para o povo saber porque aquela cadeira está vazia...que é uma restrição ao direito de liberdade de expressão...é o monopólio da mídia a serviço da política estreita, dos candidatos estreitos e antidemocráticos que lamentavelmente ainda predominam, sobretudo em São Paulo.
Até parece que o crime compensa... os medíocres, canalhas, incompetentes, traidores ocupam cada vez mais espaço...
Com certeza... eles encontram muito espaço, não é, Alex? O movimento se desintegrou. Foi uma grande falha nossa, dos nossos governos não ter preservado essa aliança com o povo...mas não adianta ficar chorando o leite derramado, tem que dar um salto de qualidade e vamos pra frente! A história não anda para trás, o tempo da história não é o nosso tempo de vida... o tempo da política não é o nosso tempo de existência...a gente tem que continuar na resistência, para diminuir os danos.
O que é que levou o PSB para a direita?
Foi a prática deles de sempre. A não ser de um passado muito distante, desde que eu entrei no PSB, evidentemente numa intensidade muito menor no início, mas faziam política de alianças absolutamente, sem critério, aliás, com pragmatismo excessivo e o comandante essas alianças é o Márcio França, vice-governador de São Paulo, presidente do PT... aliás, do PSB... no estado de São Paulo, tesoureiro nacional do partido, com muita força, sobretudo agora, a partir do momento que se tornou vice-governador... é quem comanda a política de alianças do PSB em São Paulo e praticamente no Brasil todo. Em dado momento eu vi que que era uma estranha no ninho. Sendo exatamente isolada e sem voz. Em dado momento, com a gravidade e a perspectiva que essa cidade tem ainda em relação à gente, eu ainda ficar sem posição? Ou então ficar isolada por não concordar com as posições da bancada do partido? Foi desde aquele momento em que eles saíram do segundo turno em 2014 em apoio a Aécio Neves, a partir dali eu pedi meu afastamento da executiva nacional, fiquei no diretório nacional mais algum tempo, mas eu não tinha mais nenhuma identidade com aquilo lá, então não tinha mais porque ficar lá. O PSOL me convidou... é uma pequena bancada que lembra os tempos do PT do começo...do ponto de vista da luta... do posicionamento...se deve ao PSOL o afastamento do Cunha da presidência da Câmara...o PSOL entrou com a ação contra ele no conselho de ética e ficou cobrando e até hoje cobra diariamente a cassação do mandato do Cunha. Todo dia o PSOL enche a paciência do presidente da Câmara cobrando.
Aliás, o que é esse presidente da Câmara, hein?
Ah, é um aliado do Cunha...ele faz o jogo do Cunha o tempo todo...e é um aliado do Temer. E o que é pior, a candidatura dele, o PT, o Lula, inclusive, levou parte da bancada a apoiar o Rodrigo Maia. Numa situação dessa não há escolha possível. Tem que ficar fora. Nem um nem outro. Porque nem um nem outro são... são gêmeos! Não tem que um é menos ruim...
Ele não tem nem postura de presidente da Câmara...
Não, não tem. É uma figura diminuída.
Ele é um gandula.
É verdade. Travestido de democrata... bonzinho... lamentavelmente, as coisas se dão assim... não entendi porque parte do PT votou nesse cara! Ele inclusive agradeceu ao PT no discurso de celebração da vitória dele. Ao líder do PT... ao líder do PCdoB...à Rede... só não agradeceu a nós porque nós não ficamos com ele. Mas o resto todo foi com ele. As concessões terminam dando nisso. Na política não há meio termo: ou você está de um lado, ou está do outro. Não tem amiguinho aqui, amiguinho acolá, eles ferrando com o povo. O meu compromisso é com o povo. Isso para mim é uma fé, é uma religião.

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